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Cultura

As humanidades na encruzilhada da inteligência artificial: réquiem ou renascimento?

Se a máquina escreve o ensaio, o que resta às humanidades? O que nelas merece sobreviver — e o que terá de mudar.

Ilustração de uma figura clássica contemplando uma esfera digital, simbolizando o encontro entre Humanidades e Inteligência Artificial e o futuro do conhecimento.

Em abril de 2025, o historiador da ciência D. Graham Burnett publicou na The New Yorker o ensaio “Will the Humanities Survive Artificial Intelligence?”. A pergunta não parecia exagerada. Modelos de inteligência artificial já produziam explicações, sínteses, traduções e análises com uma fluência suficiente para desorganizar algumas certezas sobre autoria, ensino e trabalho intelectual.

Desde então, as ferramentas mudaram, mas a inquietação permanece. Se uma máquina consegue compilar bibliografia, resumir argumentos e redigir um ensaio expositivo em poucos minutos, o que acontece com disciplinas que fizeram da leitura e da escrita parte central de sua prática? Se a produção acadêmica pode ser acelerada e multiplicada, o que exatamente ainda esperamos do pesquisador, do professor e do estudante de filosofia, história, literatura ou artes?

Não são perguntas sobre um futuro distante. Elas já estão dentro das salas de aula, das avaliações, das pesquisas e do cotidiano de quem trabalha com conhecimento.

Uma parte da ameaça talvez venha da maneira como aprendemos a medir o valor das humanidades. Publicações, citações, relatórios, entregas e indicadores transformaram o trabalho intelectual em uma sequência de resultados quantificáveis. A IA entra com vantagem justamente nesse terreno: organiza grandes volumes de informação, reconhece padrões, recombina formulações e produz texto em escala.

Isso não torna essas atividades irrelevantes. Compilar, sintetizar e explicar são partes reais do trabalho acadêmico. O problema aparece quando as confundimos com a totalidade desse trabalho.

As humanidades não existem apenas para acumular fatos sobre obras, períodos e autores. Elas criam condições para examinar como vivemos, o que valorizamos, que responsabilidades reconhecemos e o que fazemos diante da alegria, da dor, do conflito e da finitude. Uma base de dados pode reunir interpretações de Platão. Um modelo pode compará-las com rapidez e até revelar relações que um leitor não havia percebido. Nada disso, porém, retira de alguém a tarefa de decidir o que essas ideias significam em sua própria vida e no mundo que compartilha com os outros.

Há, portanto, uma diferença entre produzir uma resposta e responder por ela.

O que o espelho algorítmico devolve

No ensaio, Burnett relata uma experiência com seus alunos. Depois de conversarem com sistemas de IA sobre temas que haviam estudado, alguns reagiram com desalento: a máquina parecia fazer com mais velocidade e repertório muito do que eles estavam aprendendo a fazer. Outros perceberam que aquela proficiência não esgotava o trabalho que tinham diante de si. A IA podia participar da conversa, mas não viver por eles as escolhas, os impasses e as consequências que davam sentido ao estudo.

Essa distinção não exige que resolvamos, de uma vez, todas as questões sobre inteligência ou consciência artificial. Basta reconhecer um limite mais próximo: ninguém pode terceirizar a própria experiência de compreender, julgar e escolher. Um texto impecável sobre Kant não realiza automaticamente o encontro de um leitor com Kant. Pode facilitar esse encontro, empobrecê-lo ou até simulá-lo. O resultado depende do uso que fazemos da ferramenta e do tipo de educação que construímos ao redor dela.

A inteligência artificial talvez exponha uma fragilidade anterior à sua chegada. Se o ensino das humanidades se limitava a cobrar a reprodução de informações e formas convencionais de escrita, parte dele era vulnerável à automação porque já havia reduzido o pensamento ao produto final. A máquina não criou essa redução. Apenas a tornou difícil de ignorar.

Réquiem para quê?

Talvez algumas práticas não sobrevivam como as conhecemos. Avaliações baseadas apenas na redação de um texto fora da sala perderam parte de sua capacidade de mostrar o que um estudante compreendeu. Certos gêneros de síntese acadêmica podem deixar de justificar o tempo que consumiam. A autoridade fundada somente no domínio de um arquivo também terá de conviver com sistemas capazes de percorrê-lo em escala.

Isso não equivale ao fim das humanidades. Pode significar o fim de uma maneira estreita de exercê-las.

A IA trabalha com o arquivo que produzimos: textos, imagens, classificações, disputas, escolhas e silêncios humanos. Quando reorganiza esse material diante de nós, devolve uma imagem ampliada e por vezes deformada do que registramos. Cabe às humanidades perguntar de onde veio esse arquivo, quem ficou fora dele, que concepções de pessoa estão embutidas nos sistemas e quais relações de poder se escondem sob a aparência de uma resposta neutra.

Esse trabalho não compete com a máquina em velocidade. Também não se apoia numa celebração vaga da sensibilidade humana. Exige conhecimento histórico, atenção à linguagem, imaginação moral e disposição para sustentar perguntas cujas respostas não podem ser separadas de suas consequências.

As humanidades podem sair menores desse encontro, se insistirem em defender apenas as tarefas que a IA passou a executar. Podem também sair mais nítidas, se recuperarem a diferença entre informação e formação, entre texto e testemunho, entre formular uma ideia e viver sob as exigências que ela impõe.

A questão já não é simplesmente se as humanidades sobreviverão à inteligência artificial. É o que nelas merece sobreviver — e o que terá de mudar para que continuem capazes de iluminar a experiência humana, inclusive agora que parte de nossa linguagem também nos responde por meio de máquinas.

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